S A Ú D E
Escravas da balança
Por Marta Teixeira
Em março, um relatório da Comissão Internacional de Controle de Narcóticos (CICN), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), confirmou o que já era sabido, mas não assumido: o Brasil lidera o ranking mundial de consumo de inibidores de apetite. Para a psicofarmacóloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Centro Brasileiro de
Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), Solange Nappo,
a liderança não é mero acaso. Pressão social, facilidade no acesso
e visão corporal distorcida são os principais fatores que levam milhares
de mulheres a recorrerem à medicação. Indicados apenas
para os casos mais graves de obesidade, os inibidores tornaram-se
uma verdadeira febre e não é incomum que uma paciente passe
o medicamento receitado por seu médico para uma amiga. Mas o
que começa como a busca do corpo perfeito pode levar a uma dependência
psico-física semelhante à de usuários de drogas como
cocaína e outros alucinógenos. Além da dependência, o uso exagerado
e prolongado pode gerar um tipo de psicose no qual o
usuário torna-se uma pessoa desconfiada, ouve vozes e tem mania
de perseguição. “Parando o uso, os sintomas somem, mas alguns
casos chegam a ser diagnosticados erronemanete como esquizofrenia”,
alerta a Dra. Solange. A lista de problemas não pára aí. A perda
de peso aumenta a auto-estima do usuário, que se sente mais
confiante e sociável. Mas, como agem no sistema nervoso central,
estas substâncias produzem um hiperestímulo da região e, com
o tempo, o usuário pode ficar excessivamente falante. “O tipo da
pessoa que ninguém consegue ficar do lado”, explica a especialista.
“Paralelo à perda de apetite, também pode ocorrer perda de sono
e irritabilidade exagerada”. Estes, aliás, são sinais de alerta para o
uso de medicamentos emagrecedores por jovens que, às vezes,
o fazem sem o conhecimento da família. Mesmo quem utiliza o
produto com recomendação médica não pode descuidar nem sucumbir
à tentação de aumentar a dosagem por conta própria para ‘acelerar o processo de emagrecimento’.

Maiores consumidoras mundiais de remédios para emagrecer, brasileiras
colocam vida em risco em busca do corpo perfeito

Mistura explosiva
Os inibidores de apetite são antigos no mercado. As anfetaminas representam a primeira geração do produto. Inicialmente utilizadas como estimulantes, depois como descongestionantes nasais, acabaram discriminadas pela quantidade de efeitos colaterais que produziam. Nos anos 50 e 60 surgiram as metanfetaminas, substâncias que tiveram ampla utilização na 2ª Guerra Mundial por estimularem os soldados ao mesmo tempo que lhes tirava a fome. Proibidas em muitos países, como os Estados Unidos, reapareceram entre as tropas norte-americanas no Iraque e ainda são permitidas em algumas partes do mundo como inibidores de apetite. Os inibidores mais modernos pertencem ao grupo da Dietilpropiona, Anfetramona,
Femproporex e Mazindol. Os remédios prontos não são a principal fonte de descontrole no uso de inibidores. As verdadeiras
vilãs da história são as chamadas fórmulas magistrais. Apesar de transmitirem
a impressão de mais segurança, por serem individualizadas, estas receitas podem esconder algumas misturas perigosas. “O maior complicador é a associação de diferentes tipos de drogas prescritas para contornar
os efeitos colaterais dos inibidores”, alerta Dra. Solange. Para equilibrar o estímulo do sistema nervoso, combinam-se
calmantes. Como as anfetaminas aumen- tam a pressão arterial, incluem-se antihipertensivos.
Medicamentos para a tiróide também são acrescidos, podendo desequilibrar a produção de hormônios. Além de laxantes, que combatem possíveis irregularidades intestinais, e diuréticos, para auxiliar na perda de líquido (levando junto vitaminas e sais minerais fundamentais para o
bom funcionamento do organismo). Uma pesquisa desenvolvida pelo Cebrid examinou 25 mil receitas e constatou que cerca de 70% delas associavam
pelo menos algum tipo de antidepressivo em sua composição. Outra dificuldade para combater o descontrole no uso dos inibidores é
que algumas vezes perceber algo errado no organismo não é suficiente para fazer as pessoas procurarem ajuda. “De 90% das usuárias que notaram
efeitos colaterais, apenas 10% voltaram ao médico. O motivo foi o medo de o remédio ser retirado e este é um comportamento típico em
usuários de drogas”, ressalta a especialista. A dificuldade de abandonar o vício é outra semelhança entre os dois grupos. Depois de algum tempo,
deixar a medicação não depende apenas de força de vontade e pode exigir acompanhamento terapêutico e psiquiátrico, dado o grau de dependência
desenvolvido. Mesmo os chamados remédios natuais exigem olhar atento. “Porque vêem de plantas não significa que não oferecem
risco”, ressalta a psicofarmacóloga. “Além disso, uma pesquisa feita pelo Instituto Adolfo Lutz detectou que vários deles continham anfetaminas,
diuréticos e outras substâncias não incluídas na lista de componentes. Já outros simplesmente não têm comprovação científica de efeito”.
Pacote completo
Os medicamentos precisam ser encarados como elementos coadjuvantes no processo de emagrecimento. Perder peso de maneira definitiva
exige verdadeiro comprometimento, incluindo mudanças nos hábitos alimentares, adoção de atividades físicas e, acima de tudo, consciência.
Algumas mulheres buscam um ideal de beleza magérrimo, que simplesmente não condiz com o biótipo da brasileira. “A brasileira é resultado de
uma mistura de raças que tem físico forte, mas elas buscam um traço genético que não é nosso: o da européia magra”, alerta a Dra. Solange. “Para emagrecer não há milagre. É preciso procurar um
especialista, um médico endocrinologista e mudar hábitos de vida”. Lembre-se sempre de que beleza e saúde caminham juntas! Depois de algum tempo, deixar a medicação não depende apenas de
força de vontade...


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